ESTUDO DA USP REVELA QUE DEFASAGEM SALARIAL DE TÉCNICOS JUDICIÁRIOS GERA CRISE DE IDENTIDADE E ADOECIMENTO MENTAL NO PJU

Pesquisa utiliza a Psicodinâmica do Trabalho para radiografar o custo psíquico do anacronismo na Lei nº 11.416/2006 e aponta a urgência de uma reestruturação profunda da carreira.

Os resultados da pioneira pesquisa de doutorado intitulada "Identidade e Sofrimento Psíquico no Trabalho: O Anacronismo da Carreira de Técnico Judiciário no PJU", defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) pela psicóloga Ana Paula Gomes Espósito, foram divulgados oficialmente no plenário do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). O estudo serviu como tema central do terceiro painel da Semana de Combate ao Assédio 2026.

Segundo notícia veiculada na Intranet do regional, o painel de apresentação contou com a participação do coordenador de Atenção à Saúde, o médico psiquiatra Alexandre Maezuka, e com a mediação da servidora Valdirce Brandão. Na ocasião, Maezuka enfatizou que o estudo possui um valor imenso por estruturar um diagnóstico robusto a partir da percepção direta dos próprios servidores, estendendo o foco para além do assédio e alcançando a saúde mental de forma sistêmica. A divulgação do trabalho acendeu o alerta vermelho sobre o custo psíquico imposto aos Técnicos Judiciários no Poder Judiciário da União (PJU).

Trabalho Prescrito vs. Trabalho Real

Apoiada no referencial teórico da Psicodinâmica do Trabalho (PDT), desenvolvido por Christophe Dejours, a pesquisadora realizou entrevistas em profundidade com cinquenta Técnicos Judiciários. Os resultados traçam um diagnóstico contundente do sofrimento gerado pelo descompasso entre as exigências institucionais e a falta de valorização da categoria.

O estudo joga luz sobre o imenso hiato existente entre o trabalho prescrito (a descrição legal de 2006 que limita o Técnico a tarefas de “suporte técnico e administrativo”) e o trabalho real executado cotidianamente nos tribunais. Na prática, a sobreposição de tarefas com o cargo de Analista Judiciário é uma realidade consolidada, mas que carece de contrapartida financeira proporcional.

“Me incomoda e me desestimula essa progressão diferenciada entre Técnico e Analista porque na prática exercemos as mesmas atividades”. — Desabafo de um dos servidores entrevistados na pesquisa.

Como a remuneração é rigidamente atrelada ao cargo do concurso e não ao trabalho real, essa disparidade salarial e a falta de uma progressão justa atuam como fatores crônicos de desmotivação, gerando um profundo sentimento de estagnação e desinvestimento subjetivo.

Essa ausência de fronteiras funcionais nítidas colide diretamente com a manutenção de uma tabela de vencimentos na qual o Técnico recebe substancialmente menos, mesmo após a aprovação da Lei nº 14.456/2022, que passou a exigir o Nível Superior para o cargo. Ou seja: aumentou o “estoque de conhecimento” exigido, mas a valorização financeira ficou estagnada no passado.

A Explosão do Absenteísmo em Números

O adoecimento mental decorrente das cobranças frenéticas por produtividade e do modelo gerencialista adotado pelo Judiciário é materializado em dados estatísticos preocupantes trazidos pelo estudo:

  • Ansiedade e Estresse: O Censo do Poder Judiciário aponta que quadros de ansiedade atingem 47,9% dos servidores, enquanto o estresse afeta 37,4% do quadro.
  • Esgotamento Mental: Já é uma realidade declarada por 21,4% dos trabalhadores do Judiciário.
  • Afastamentos em Escalada: No Tribunal analisado, os Transtornos Mentais e Comportamentais lideraram o número de dias de afastamento. No ano eleitoral de 2022, os afastamentos por razões psíquicas somaram 4.892 dias — um salto de quase 100% em relação ao ano anterior (2.498 dias).
  • Recordes Sucessivos: Mesmo em anos não eleitorais, a perda de saúde mental continuou em escalada, registrando 5.855 dias de licença em 2023 e atingindo o recorde de 6.305 dias em 2024, sem que houvesse qualquer aumento no quadro de servidores para mitigar a sobrecarga.

A Armadilha da “Normalidade Sofrente”

A pesquisa de Esposito revela que, para suportar a falta de reconhecimento e a invisibilidade de suas reais competências, os Técnicos recorrem a estratégias de defesa que camuflam o desgaste estrutural. Trata-se do conceito de “normalidade sofrente”.

Nessa condição, o servidor público permanece altamente produtivo e cumpridor de metas, mas o faz à custa de uma luta psíquica dura, invisível e silenciosa contra o colapso mental.

A importação descontextualizada de modelos de gestão focados puramente em indicadores numéricos sufoca a inteligência prática, gera o chamado “ativismo sem obra” (atividades vazias de significado) e adoece coletivamente a categoria.

Anatecjus na Luta contra o Anacronismo

Os achados científicos da tese de doutorado da USP corroboram e dão densidade humana aos relatórios estatísticos de similaridade funcional já defendidos pela Anatecjus.

A associação apresentou, recentemente, dois estudos que confirmam esse cenário: um sobre a sobreposição das atribuições de Técnicos e Analistas e outro de perfil econômico sobre a evolução salarial da carreira nos últimos trinta anos. Ambos confirmam a precarização do cargo de Técnico Judiciário frente às transformações do PJU.

O estudo da USP demonstra que é insustentável manter um modelo de governança que se apropria da cognição de nível superior dos Técnicos, mas os mantém financeiramente aprisionados a parâmetros defasados de nível médio.

A Anatecjus reafirma que a reestruturação da Lei nº 11.416/2006 não é um mero pleito corporativo por recomposição salarial; trata-se de uma medida urgente de saúde pública, de responsabilidade gerencial e de estrita justiça constitucional para com os trabalhadores que sustentam a prestação jurisdicional do país.

Onde ler a pesquisa completa:

Comentários

Seja o primeiro a comentar.