* Por Flávio da Rocha Prevot
Parece que a inflação é a maior e única vilã do serviço público, mas só para alguns. A Administração, com sua sabedoria notável, se debruça com afinco sobre a recomposição salarial, como se a única ameaça à dignidade dos servidores fosse o fantasma da carestia. Enquanto isso, o abismo salarial entre técnicos e analistas cresce a olhos vistos, um canyon de incongruência ignorado com a mesma destreza com que se contornam os problemas reais.
Afinal, para que enfrentar o óbvio? Por que aproximar as remunerações de quem, na prática, compartilha as mesmas tarefas, responsabilidades e o estresse do dia a dia? Afastar o salário dos técnicos do de seus pares de nível superior, que muitas vezes desempenham a mesma função, é a nova "justiça" trabalhista. O PJU é o máximo. Onde já se viu valorizar a mão de obra que sustenta a máquina e garante o bom funcionamento dos tribunais? Isso é coisa de radical.
A hipocrisia floresce nos grupos de Whatsapp, em associações de Analistas e até mesmo entre Técnicos de certas especialidades. Aqueles que se rasgam em defesa da recomposição de seu próprio salário são os mesmos que riem da sanha dos técnicos por justiça. A falta de empatia é diretamente proporcional à desvalorização da categoria. E a Administração, ah, a Administração! Ela se deita em sua poltrona de comodidade e se nega a reconhecer o óbvio: a injustiça salarial.
É nesse ponto que a ironia se torna ácida e amarga: já que os técnicos recebem cerca de 60% do salário dos analistas, talvez devessem ter apenas 60% das atribuições, da responsabilidade e da carga horária. Parece absurdo, não é? O que há de razoável é exigir 100% da mão de obra, da dedicação e do profissionalismo por uma fração do salário.
E então, a pergunta final: quem são os radicais? São os técnicos, que lutam para ter uma remuneração minimamente justa, ou aqueles que defendem a inércia, o status quo e um abismo que só serve para desvalorizar a força de trabalho? A resposta é clara: a Administração fortalece os radicais da inércia e da desvalorização, e o preço dessa omissão será pago por todos os Técnicos, inclusive os pets de Analistas.
União falsa invocada, além de subserviente deixa como legado a miséria da grande maioria. Só isso já demonstra que não são apenas os magistrados que são os nossos inimigos! Há muitos outros!
* Flávio da Rocha Prevot é Técnico Judiciário da Justiça Federal no Rio de Janeiro (JFRJ)
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