* Por Flavio da Rocha Prevot
Existe uma pergunta que precisa ser feita de forma direta, sem rodeios e sem o conforto das expressões burocráticas: os Técnicos Judiciários do Poder Judiciário da União são ou não trabalhadores como quaisquer outros?
Porque, se são, por que a realidade vivida diariamente por milhares de servidores continua sendo tratada com silêncio, cautela excessiva ou discursos mitigadores pelas entidades que deveriam representá-los?
A verdade é simples, ainda que muitos tentem contorná-la: Técnicos e Analistas exercem, na prática cotidiana do PJU, atividades substancialmente idênticas em inúmeras unidades. Isso não é uma tese extravagante, nem uma percepção isolada. É uma constatação diária de quem vive a rotina do Judiciário. O próprio processo histórico de transformação da carreira tornou essa distinção formal cada vez mais artificial.
A carreira desenhada em 2006 já não existe na prática. Sobrevive apenas na letra fria da lei.
Ainda assim, insiste-se em preservar a narrativa de que o Técnico seria um mero “cargo de suporte” ou “complementar” ao Analista. Uma ficção institucional conveniente para manter estruturas remuneratórias profundamente desiguais, apesar da equivalência concreta de responsabilidades, tarefas e produtividade.
O mais grave é perceber que essa narrativa não é sustentada apenas pela Administração. Ela também é reproduzida — ainda que de forma indireta — por entidades sindicais e representativas que deveriam enfrentar a questão com honestidade política.
Não se trata de uma “pauta setorial” dos Técnicos. Reduzir o problema a isso é fugir do ponto central. O que está em discussão é exploração institucional do trabalho.
Quando dois servidores executam atividades equivalentes, submetidos às mesmas cobranças, às mesmas metas e às mesmas responsabilidades práticas, mas um deles permanece estruturalmente desvalorizado por uma distinção funcional cada vez mais fictícia, o que existe é um problema de justiça laboral e de coerência institucional.
E isso deveria indignar qualquer entidade sindical comprometida com a defesa do trabalho digno.
Mas o que se vê, muitas vezes, é uma postura defensiva, cautelosa e excessivamente preocupada em não desagradar determinados setores da carreira. Enquanto isso, Técnicos seguem acumulando frustração, adoecimento e sentimento de abandono.
A estratégia adotada nas discussões sobre reestruturação também revela uma contradição evidente. Defende-se a redução das diferenças remuneratórias, mas evita-se enfrentar a questão essencial: a igualdade material do trabalho exercido. Pretende-se corrigir parcialmente os efeitos sem tocar na causa.
É uma conta que não fecha.
Como justificar diferenças tão profundas entre cargos quando a própria dinâmica do PJU dissolveu, ao longo dos anos, as fronteiras reais entre suas atribuições? Como sustentar o discurso do “suporte” diante de uma realidade operacional em que Técnicos assumem tarefas complexas, responsabilidades elevadas e atividades idênticas às dos Analistas?
Persistir nessa narrativa apenas prolonga um modelo anacrônico que interessa à Administração, porque reduz custos, fragmenta a categoria e neutraliza pressões mais contundentes por reestruturação.
Talvez por isso o PJU não demonstre urgência em resolver o problema. Afinal, enquanto a própria representação sindical aceita — ainda que parcialmente — a ficção das diferenças substanciais de atribuições, o sistema permanece confortável.
E é justamente esse silêncio institucionalizado que produz o maior desgaste.
Muitos Técnicos já não se sentem apenas desvalorizados. Sentem-se usados. Percebem que o fruto do seu trabalho sustenta uma engrenagem que se beneficia da ambiguidade funcional, ao mesmo tempo em que lhes nega reconhecimento compatível.
A reestruturação da carreira talvez seja a última grande oportunidade de enfrentar essa realidade com coragem política e honestidade intelectual.
Mas isso exige abandonar eufemismos.
Exige reconhecer que o problema não é corporativo, nem identitário. É estrutural. E enquanto não for tratado dessa forma, o sentimento de revolta, descrença e abandono continuará crescendo dentro do próprio Poder Judiciário da União.
Porque nenhuma instituição comprometida com justiça pode normalizar, dentro de si mesma, relações de trabalho marcadas pela desigualdade prática travestida de formalidade legal.
* Flavio da Rocha Prevot é Técnico Judiciário – Área Administrativa da Justiça Federal 2ª Região – Subseção Judiciária de Resende/RJ
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